Archive | fevereiro, 2013

II

18 fev

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás…

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como um malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender…

O mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar…

(PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos.)

Deixar de amar quem se ama.

14 fev

O amor, bem, ele nunca bate na porta. O meu amor entrou pela fresta da porta que acabei esquecendo aberta. Ele se instalou sem eu nem perceber e quando me dei conta já era tarde de mais. “Tendo o amor, nada mais importa” é a frase corriqueira de quem se apaixona. E só focamos no amor, no fazer bem, no não querer magoar o outro,  no falar com a pessoa como gostaria que ela lhe falasse, e por aí vai. E isso não está errado, é bom quando encontramos alguém que nos completa, nos transborda, é raro encontrar alguém em quem confiar hoje em dia; é bom quando ganhamos não só amor, mas amizade, respeito, admiração, cuidado, felicidade, sintonia, cordialidade, apego, excitação e tudo mais.

Só que com o passar e pesar do tempo nos esquecemos desse amor. Achamos que já conquistamos aquela pessoa e que ela irá ficar ali conosco pra sempre sem precisarmos lutar por mais – é essa a prova de estarmos tão equivocados. Porque começamos a tratar o outro de forma insignificante, as vezes até menosprezamos o outro – não dando a mínima importância pros seus sentimentos e ainda acreditamos que aquele outro ainda irá nos amar.  E aí, deixamos de amar. O amor não é só aquilo que sentimos, é aquilo que colocamos na prática. É o respeito pela outra pessoa, é o cuidado, a atenção, e quando deixamos de fazer tudo isso o amor vai embora.

E é um baque quando descobrimos que nós estamos fazendo tudo errado. Passamos dias e dias tentando encontrar o porquê das coisas estarem caminhando pro fundo do poço, arrumando desculpas, até que percebemos que o erro era nosso e vermos que desde o princípio estávamos batendo na mesma tecla, é horrível.

Mas, pelo menos agora, podemos aprender um pouco mais, olhar mais para fora de si e amar.

Encontrar um porquê – apesar de esse porquê sermos nós mesmos – é melhor do que ficar sem uma resposta. Melhor ainda é ter um pouco de tempo pra concertar as coisas, e bom… e Voltar a amar.

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(PINHEIRO,Ana)